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‘Paro quando quiser’

Quando 19,1% dos brasileiros consomem bebidas alcoólicas de forma abusiva, é preciso falar sobre o problema velado do alcoolismo

Uma arma, uma bala, uma tentativa. A roleta russa foi uma das coisas que Luiz Antônio da Cruz fez por conta do alcoolismo. Entre brigas e empregos perdidos, ele chegou a ameaçar o padrasto com uma faca sem nem saber o motivo. Hoje, Luiz Antônio tem um site sobre alcoolismo, no qual compartilha textos para ajudar pessoas a superarem o problema. Segundo a pesquisa Vigitel Brasil 2016 do Ministério da Saúde (Vigilância de fatores de risco e proteção para Doenças Crônicas por inquérito telefônico), 19,1% dos brasileiros consomem bebidas alcoólicas de forma abusiva.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, 3,3 milhões de mortes ao redor do mundo (5,9% do total) em 2012 foram atribuídas ao consumo de álcool. De acordo com outro relatório da OMS de 2014, cada pessoa (acima de 15 anos) consumiu, em média, 8,7 litros de álcool por ano no país, entre 2008 e 2010, enquanto a média per capita mundial durante o período foi de 6,2 litros. A média brasileira projetada para o ano de 2016 foi de 8,9 litros, enquanto a média mundial projetada foi de 6,4. O psiquiatra e psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, Bernard Miodownik, explica que o alcoolismo é uma doença. “Mesmo que inicialmente o álcool seja utilizado para aliviar ou encobrir sintomas ansiosos ou depressivos, o seu uso constante cria uma dependência psicológica e uma dependência física específica.”

Luiz Antônio da Cruz, autor do site Alcoolismo (Foto: Arquivo Pessoal)

Luiz Antônio da Cruz,
autor do site Alcoolismo (Foto: Arquivo Pessoal)

Luiz começou a beber com 14 anos. A maioria dos seus amigos já bebia e ele não queria ficar de fora. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar de 2015 do IBGE revelou que 55,5% dos pouco mais de 102 mil alunos do 9º ano do ensino fundamental entrevistados já experimentaram alguma vez uma bebida alcoólica. Para piorar, 23,8% dos entrevistados disseram ter bebido nos últimos 30 dias anteriores à realização da pesquisa, e 21,4% do total disseram já ter passado por um episódio de embriaguez na vida. Segundo o psiquiatra, o álcool muitas vezes é uma ponte para a socialização e inserção em um grupo, além de funcionar como um “desinibidor” nos relacionamentos. “O alcoolismo costuma começar na juventude nessa forma recreativa”, explica.

Quando o álcool não fazia mais efeito, Luiz passou a fumar maconha e só não foi para cocaína porque era muito cara. Com uns 20 e poucos anos, a situação foi piorando. Ia trabalhar embriagado, acabava brigando e sendo demitido. Quando se mudou para outro bairro com a mãe e os irmãos, ficou contente porque a casa alugada fazia esquina com um bar. Acabou tendo um relacionamento com Ana Léia, a dona do local. Ia para o bar ajudá-la e acabava bebendo escondido.

Ele achava que um dos clientes tinha um caso com Ana. “O doente do álcool acaba vendo coisas que não existem”, conta Luiz. Um dia, depois de uma mistura nada saudável entre remédios para emagrecer e muita bebida, Luiz agrediu o cliente. Ele tentou agredir a própria mulher, mas foi impedido. Depois da confusão, ela o expulsou do bar e de sua vida.

Durante os seis meses em que ficou afastado da mulher e daquele bar, ele pegava sua moto e bebia muito no seu antigo bairro. “Não sei como voltava de moto”, conta. Uma vez, uma viatura de polícia pediu para que Luiz encostasse. Ele ia começar um novo trabalho como motoboy no dia seguinte, sabia que a situação não era nada promissora e falou a verdade. “Eu estou com problemas, me separei da minha mulher, estou tentando parar o álcool, separei dela por causa da bebida. Vou começar um emprego novo amanhã, se eu for preso e perder a moto, não vou ter mais o que fazer da minha vida”. O policial disse que guincharia a moto, mas que ele ficasse tranquilo, porque nada ia acontecer com ele. Quando chegaram à delegacia, uma assistente social conversou com Luiz. “Aquele policial entendeu minha situação”, lembra. A polícia chamou os irmãos do Luiz para que o levassem para casa. “Meu irmão começou a chorar, a me perguntar o que estava fazendo com a minha vida e a dizer que estava acabando com a de minha mãe”, lembra Luiz.

Depois do episódio, ele resolveu dar uma chance a sua mãe e concordou com seu pedido de ir a uma reunião da Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo (AAESP). Naquele mês de junho de 1993, diante de todos os presentes no encontro, Luiz jurou que ia parar de beber. Bernard Miodownik lembra que ajudar um alcoólatra costuma ser complicado, pois a pessoa tende a negar sua dependência, dizendo “paro quando quiser”. A pessoa geralmente não para ou logo retoma o uso de álcool pelo prazer emocional devido à dependência psicológica e por conta do mal-estar físico causado pela dependência física. “Na maioria dos casos, a pessoa só vai buscar tratamento por exigência familiar”. O psiquiatra explica que a melhor forma é buscar uma abordagem multidisciplinar com tratamento emocional através de psicoterapia individual ou grupal para o alcoólatra e sua família, além de tratamento medicamentoso com psiquiatra e tratamento clínico para as complicações físicas do alcoolismo. Os grupos de apoio também são uma alternativa.

Durante sua recuperação, um ex-chefe o reencontrou e acabou o empregando novamente. Como o chefe era cliente do antigo bar, ele foi dando notícias da mudança de vida de Luiz. Ana Léia e Luiz logo voltaram a se encontrar e acabaram voltando a namorar.  Os filhos dela estavam com um pé atrás, mas Luiz sabia que devia ganhar novamente a confiança de todos.

Com o surgimento da internet, a empresa onde trabalhava montou um provedor. Luiz deixou de ser motoboy para ocupar um cargo administrativo, quando aprendeu um pouco sobre internet. Como sabia que sua mulher gostava de orquídeas, fez um pequeno site com imagens de flores. Na época, um jornal estava fazendo uma matéria sobre a quantidade de inutilidade que havia na internet e seus colegas indicaram seu portal. “Fiquei constrangido, mas participei da matéria. O site era um lixo mesmo. Era bonitinho para minha esposa, mas não tinha utilidade nenhuma”. A repercussão negativa sobre o antigo site foi alta, e foi aí que Luiz teve uma ideia: “se um site de orquídeas pode gerar tanta repercussão mesmo que negativa, por que não faço um sobre alcoolismo, sobre minha recuperação?”. O site sobre alcoolismo foi ganhando reconhecimento, logo vieram e-mails de pessoas pedindo ajuda e convites para falar com a imprensa. Luiz pediu ajuda de clínicas de reabilitação para responder a parte médica e o site continuou a crescer.

Luiz Antônio da Cruz é abstêmio desde seu primeiro e único voto na AAESP, em 1993. Hoje, aos 56 anos, ele tem consciência do perigo do álcool. Depois de uns cinco anos sem beber, sua sogra ofereceu um gole de champagne numa festa de final de ano, dizendo “você já está bom, não vai acontecer nada”. Luiz recusou, sabia que sua promessa era para vida toda e que muitas pessoas passam tudo de novo por conta de apenas um gole. Luiz é casado com Ana Léia desde 2010. O bar não existe mais, o que foi um alívio para Luiz, não pela sua fraqueza para com a bebida, mas porque sabia que era incoerente falar sobre alcoolismo enquanto enchia o copo dos outros.

Fonte: ‘Paro quando quiser’ | Opinião e Notícia