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Álcool: quando você percebe, ele já dominou – JCNET

Enquanto revirava sacos de lixo em busca de algo para comer, José (nome fictício), 42 anos, mal conseguia fazer o retrospecto da própria vida que o permitisse compreender em que momento as circunstâncias o levaram até ali. Tinha perdido a oficina em que trabalhava como mecânico, destruído três casamentos e abandonado seis filhos.

O culpado: o álcool. José conta que nunca experimentou outra droga que não a bebida, que arruinou sua vida sem que ele percebesse. “Durante mais de dez anos, eu bebi como todo mundo, como você, como quem está lendo esta matéria. O alcoolismo é uma doença que domina você progressivamente, sem você se dar conta, até começar a perder tudo: família, amigos, emprego. O que aconteceu comigo pode acontecer com qualquer um”.

Para quem não bebe todos os dias da semana e apenas vez ou outra passa dos limites, parece uma realidade distante. Mas não é. Especialistas ouvidos pela reportagem reforçam o depoimento de José: quando menos se espera, pode ser tarde demais.

O uso da substância pela humanidade remonta a pré-história, quando moradores do norte da China, em torno de 8000 a.C., inventaram uma bebida feita de arroz, mel e frutas fermentados. Até hoje, o mero consumo de álcool, por si só, não pode ser considerado um mal, mas o crescente uso abusivo vem deixando em estado de alerta pesquisadores e profissionais de saúde pública.

Em dez anos, o consumo per capita no Brasil aumentou assustadores 43,5%, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Em 2016, cada brasileiro a partir de 15 anos de idade bebia o equivalente a 8,9 litros de álcool puro por ano – valor 39% superior à média mundial, que é de 6,4 litros por ano.

E, no inverno, a tendência é de que o consumo aumente ainda mais. Segundo a Associação Paulista de Supermercados (Apas), nesta época, a comercialização de bebidas como uísque, vodca, vinho e conhaque cresce em torno de 10% a 15%.

“O álcool é a substância psicoativa mais consumida no País, entre outros motivos, por ser um produto de fácil acesso e com opções muito baratas, o que permite a aquisição por pessoas de todas as classes sociais e das mais variadas idades”, aponta a psiquiatra Florance Kerr-Corrêa, professora do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.

PREOCUPAÇÃO

Por conta desta vasta disponibilidade e da fragilidade da legislação que proíbe a venda bebidas a menores de 18 anos, o uso abusivo traz mais preocupações do que alcoolismo, que atinge uma parcela bem mais reduzida da população. “O alcoólatra tem compulsão e sofre com crises de abstinência, caracterizada por tremores e mal estar. É uma condição extrema, mas os problemas e riscos surgem bem antes desta fase, em um período que pode durar muitos anos”, salienta.

O álcool, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), é tido como a substância que mais gera violência familiar e urbana e que contribui com cerca de 10% para toda a carga de doença no Brasil, entre elas depressão, ansiedade e câncer. O uso abusivo pode ser fator decisivo, ainda, para acidentes de trânsito com mortes, afogamentos, insucesso escolar e no trabalho e para comportamentos de risco, como sexo desprotegido, que pode provocar doenças e gravidez indesejada.

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde não destacou um profissional para comentar o assunto. Mas os dados mais recentes do portal Datasus revelam uma realidade preocupante, que reforça o agravamento do problema ao longo dos anos: em 2012, 6.944 pessoas morreram no Brasil por intoxicação aguda por álcool ou em decorrência do consumo exagerado de bebida alcoólica. O número é quase o dobro do registrado em 1996.

NO TRABALHO

O alcoolismo é a terceira causa de ausências recorrentes no trabalho e a oitava para a concessão de auxílio-doença pela Previdência Social no Brasil. Para avaliar o consumo de risco entre trabalhadores da região, a psicóloga Sandra Regina Chalela Ayub iniciou uma pesquisa para sua tese de doutorado pela Unesp de Marília.

A previsão é de que ao menos uma das empresas pesquisadas seja de Bauru. “Não existem estudos recentes realizados dentro das organizações, até porque há uma resistência delas em permitir este tipo de pesquisa. Existe um tabu, ainda que o alcoolismo represente prejuízos financeiros”, pondera. Segundo Sandra, o último levantamento realizado sobre o tema, de 22 anos atrás, já indicava taxa de 35% de alcoolismo entre os trabalhadores. Agora, o objetivo, além de atualizar as estatísticas, é promover a chamada “intervenção breve” aos que não são classificados como dependentes, mas fazem uso abusivo da bebida.

“Trata-se de uma técnica utilizada há anos, que demanda alguns encontros de uma hora com o trabalhador e muito pouca técnica. E as organizações também podem, posteriormente, adotar ações de prevenção e, assim, combater a queda de produtividade, as ausências e os acidentes de trabalho”, completa.

RELATOS

Por conta do consumo excessivo de bebidas, José chegou a ficar um mês morando na rua, exposto a riscos, até encontrar os Alcoólicos Anônimos (AA), no final de 2010.

Em sete anos de recuperação – que se baseia na ajuda mútua dos membros e no programa de Doze Passos – voltou trabalhar como mecânico e a estudar e ainda passou em um concurso público. “Quando comecei a beber, eu jamais imaginava que chegaria ao fundo do poço. Hoje, posso dizer: minha vida é um milagre”, comemora.

Já Vagner, 45 anos, conseguiu parar de beber antes de ser atingido pelas perdas que o alcoolismo habitualmente provoca. O estopim que o levou à decisão, há cinco anos, foi o risco a que se submeteu em razão da dependência. Depois de uma discussão familiar em Araçatuba, voltou para Bauru de moto, sozinho, fazendo estratégicas paradas em cada cidade ao longo do percurso para se embriagar.

“Fiquei dez horas na rua e, quando cheguei em casa, mal conseguia descer da moto. As pessoas que têm problemas com álcool não conseguem perceber e eu tinha, mesmo tendo feito faculdade, mestrado e sempre ter trabalhado. Eu bebi durante 30 anos. É uma doença progressiva e pode ser fatal”, observa.

Assim como José e Vagner, Antônio, 78 anos, encontrou a saída do alcoolismo no grupo AA Caminhos da Vida, fundado há 42 anos em Bauru e que conta, hoje, com cerca de 25 membros – a maioria homens. Antônio revela que chegou a comprar um carro durante uma noite de bebedeira com um amigo e que acordou no dia seguinte sem lembrar do que havia acontecido.

“Infelizmente, o senso comum associa a figura do alcoólatra a de um desocupado, um sujeito todo sujo, que vive na rua e não se esforça para nada. Mas é bem diferente disso. Eu comecei a beber regularmente aos 20 anos e cheguei a ter uma empresa grande em Bauru, que só faliu porque as coisas foram fugindo do controle. Só não perdi a minha família”, diz.

Todos os nomes foram trocados a pedido dos membros do grupo.

O AA Caminhos da Vida realiza reuniões todas as noites, a partir das 20h, na rua Bandeirantes, 12-43, Centro. Para informações, o contato é o (14) 3016-6992.

BEBIDA COMO FINALIDADE

Lícito, o ato de beber está associado a momentos de celebração, ao merecido “prêmio” após um dia difícil e, em quase todas as vezes, vinculado ao sucesso pessoal, profissional e sexual nas peças publicitárias veiculadas pelos fabricantes. Funciona como um reforço e tanto para a autoestima, especialmente a de quem, ainda inseguro, precisa ser reconhecido pelo grupo a que pertence.

Neste contexto, os jovens se tornam alvos fáceis. E, mesmo que não sejam considerados dependentes, muitos adotam comportamentos de alcoolismo, ao transformarem o álcool na principal fonte de prazer.

“Uma festa deveria representar a oportunidade de encontrar amigos, usufruir de um ambiente agradável e o álcool ser apenas um detalhe a mais nesse contexto. Mas, entre os alcoólatras, perde a importância o prazer de usar o álcool dentro de certo ritual contemporâneo socialmente aceito”, pontua em entrevista concedida ao médico Drauzio Varella o também médico Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Para a psiquiatra Florance Kerr-Corrêa, da Unesp de Botucatu e a assistente social Christine Habib, do câmpus da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru, trata-se de um comportamento recorrente entre os mais jovens, que são mais imaturos e precisam, mais do que os adultos, de autoafirmação. E os estabelecimentos do ramo de entretenimento, lembra Florance, reforçam este hábito, a partir da realização de festas “open bar” ou da oferta de doses em dobro para mulheres, por exemplo, que funcionam como um chamariz para elas beberem mais e eles aproveitarem a oportunidade de abordar garotas “soltinhas” na pista.

“E isso acaba expondo mais estes jovens aos comportamentos de risco, sejam sexuais ou associados à violência”, pontua Florance, salientando que, diferentemente de outros países, no Brasil os adolescentes menores de 18 anos têm fácil acesso à bebida, a despeito da legislação vigente.

PRECOCE

No País, as pessoas começam a experimentar álcool cedo: entre os não abstêmios, 5% dão o primeiro gole até os 11 anos e 54% começam a beber entre os 12 e 17 anos, segundo dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), de 2012. Ainda de acordo com a pesquisa, do total de não abstêmios, 31% passam a beber regularmente entre 15 e 17 anos.

“Normalmente, quando chega à universidade, o jovem já fez uso de álcool, que é uma droga socialmente aceita até mesmo no contexto familiar”, aponta Christine Habib, que coordena ações preventivas com foco na qualidade de vida de estudantes universitários. Como agravante, ela também aponta a associação de fabricantes a eventos esportivos, o que contribui para naturalizar o consumo de bebidas principalmente entre os jovens, afastando a noção de que o abuso pode gerar consequências graves.

“Apesar de tanto acesso à informação, a imaturidade, a curiosidade, a excitação e a necessidade de aceitação – características desta fase da vida – levam aos exageros, principalmente quando a família não é presente na vida deles”, detalha.

MORTE

De acordo com o portal Datasus, a cada 36 horas, um jovem brasileiro morre de intoxicação aguda por álcool ou de outra complicação decorrente do consumo exagerado de bebida alcoólica. Em fevereiro de 2015, o estudante universitário Humberto Moura Fonseca, 23 anos, morreu depois de ingerir cerca de 25 doses de vodca em uma competição alcoólica promovida em uma festa open bar em Bauru.

Os dois organizadores e o proprietário da chácara onde o evento ocorreu foram condenados, neste mês, em primeira instância, ao pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos em ação civil movida pelo Ministério Público (MP) de Bauru. Durante a festa, outros três estudantes entraram em coma e alguns, em situação menos grave, também precisaram receber atendimento médico.

Fonte: Álcool: quando você percebe, ele já dominou – JCNET